ABRA OS OLHOS: TEM ARTE AÍ! {Entrevista com Rodrigo, do Dead Fish}

O blog ConceitoAll sempre aborda assuntos como comunicação, música e arte em geral. E, particularmente, considero arte aquilo que alguém faz com verdade e, mesmo sem premeditar, deixa de herança pra outras pessoas.

Pra ficar mais claro, acho que arte é aquilo que vemos uma vez e, depois de um tempo, tendo vivido novas experiências, voltamos pra ver de novo e ainda faz sentido. E mais, pode ter um sentido ainda melhor.

Quando ouço uma música, por exemplo, gosto de reparar no todo. Uma letra escrita com um propósito é muito mais interessante. Se a mensagem faz pensar, melhor ainda. Passa um tempo, você pega aquele disco de novo e ouve com “novos ouvidos”. Aí você pensa: “Ah, agora entendo o que quer dizer”. Me dá um enorme prazer compreender ou perceber as coisas de maneira diferente com o tempo. Tem tudo a ver com a nossa própria evolução.

Um cara que me faz parar pra ouvir suas letras é esse aí embaixo. Rodrigo Lima, vocalista e principal letrista da banda capixaba Dead Fish, é desses que escrevem coisas atemporais. Cada vez que ouço é uma novidade.


Rodrigo Lima (Dead Fish)

Batemos um papo sobre alguns assuntos bacanas. Dá uma lida!

NOME: Rodrigo Lima
ONDE NASCEU?
Vitória – ES, Brasil.
O QUE FAZ?
Boa parte das letras do Dead Fish e trabalho num restaurante vegan.

O DEAD FISH ESTÁ PRA COMPLETAR 20 ANOS DE CARREIRA. COMO FOI A ESTRADA ATÉ AQUI?
Nunca foi fácil. Muita dificuldade, mas, paralelamente, muito prazer e aprendizado. Não faria nada diferente.

VOCÊS AINDA ESTÃO COM A DECK DISC? COMO É ESSA RELAÇÃO?
Boa pergunta. A esta altura já não sabemos se estamos na Deck ou não. Já cumprimos nosso contrato e temos ainda algumas coisas pra conversar, mas está tudo ainda muito obscuro. Gostaríamos de trabalhar com eles por mais algum tempo, mas não sei se eles querem isso. Sempre foi uma relação muito boa, sempre tivemos muito diálogo com eles. Nem sempre foram os melhores, mas em boa parte do tempo foi um trabalho bem honesto e legal.

NESSE MEIO MUSICAL SEMPRE ROLOU UM CICLO DE INTERDEPENDÊNCIA. ANTIGAMENTE, AS BANDAS DEPENDIAM MUITO DAS GRAVADORAS PRA PAGAR UM “JABÁ” PRAS RÁDIOS, DIVULGAR O TRABALHO E FACILITAR A VENDA DE SHOWS. E SÓ COM OS SHOWS A BANDA PODIA GANHAR DINHEIRO. DEPOIS DE TANTOS ANOS NO MERCADO INDEPENDENTE, O QUE MUDOU PRO DEAD FISH QUANDO VOCÊS ASSINARAM COM A DECK?
Mudou o foco da banda na parte fora da música. Passamos a ter uma editora, alguém pra gravar a gente sem a gente ter que ficar pensando nisso. Depois tivemos um empresário que fazia esta parte de shows e divulgação. Em parte foi bem legal viver de música por uns 5 anos, só de música, mas, por outro lado, acho que alguns erros foram cometidos e não foram errinhos, foram grandes erros que acho que comprometeram alguns objetivos da banda. Mas a grosso modo tivemos uma experiência bem positiva vendo tudo das internas, como funcionava e como não funcionava. Meio que vimos de camarote a coisa ruindo internamente, mas também vimos o quanto tem gente dedicada neste meio, tanto quanto no meio independente, e o quanto é um jogo como qualquer outro num país como o nosso. Na real, acho que é assim no mundo inteiro. A diferença é que aqui são muito menos pessoas que mandam no jogo.

AINDA SOBRE AS DIVERSAS MUDANÇAS QUE OCORRERAM NO MERCADO MUSICAL… O GRANDE “BOOM” DO MOMENTO É A TAL “WEB 2.0”, QUE É MAIS COLABORATIVA E INTERATIVA. COMO ISSO ENTRA NA SUA RELAÇÃO COM A MÚSICA, SEU PÚBLICO E OS MEIOS DE DIVULGAÇÃO?
A gente usa do jeito que a gente gosta de usar. Não levamos essa coisa de estar diretamente ligado ao fã tão a sério. Tem um lado fragmentador que não é legal. É informação demais e às vezes sai do foco. Ao mesmo tempo que podemos dizer diretamente pra um cara que está lá no Amapá do que gostamos e não gostamos em música e o que achamos de tal coisa. Isso é positivo porque não existe o filtro, não existe o fazedor de mitos ou de fofocas. Pra mim isso é a melhor coisa nestas ferramentas.

A VELOCIDADE DE INFORMAÇÃO E ACESSO A NOVIDADES É ABSURDA. COMO VOCÊ USA ISSO NO SEU TRABALHO COM O DEAD FISH E NA VIDA PESSOAL?
Tem coisas que pra mim são velozes demais e não estou tão disposto a acompanhar isso. De uns tempos pra cá só baixo coisas que meus amigos me indicam ou escrevem num Facebook da vida. Não quero  ouvir 50 bandas novas por dia, nem ver 300 artistas multimídia novos por semana, não estou interessado. Procuro focar onde estou, ouvir coisas que estão próximas, dos vizinhos, do meu Estado, da Argentina… acho mais positivo. Claro que se eu morasse no meio da Savana africana eu ficaria muito mais na Internet, procurando coisas, mas estou na cidade e se quero ver algo de verdade basta pegar um ônibus ou ir até a esquina pra ver a coisa acontecendo, com cheiro, barulho e pessoas. O que gosto nesta velocidade é que muitas das pessoas que dominavam este acesso às artes no geral já não têm mais tanto este poder e isso é bom, ao meu ver.

VOCÊ BAIXA MÚSICAS NA INTERNET? POR QUÊ?
Sim, claro que baixo. Hoje posso conferir antes de ir comprar um vinil ou um CD de uma banda. Sem falar que posso ouvir bandas do mundo inteiro.

VOCÊ TEM PERFIS EM REDES SOCIAIS, COMO O TWITTER, POR EXEMPLO? POR QUÊ?
Também tenho, mas se usei umas 20 vezes nos últimos 2 meses foi muito. Conheço gente que joga informação lá o dia inteiro. Cara, é impossível absorver tanta informação.

SUAS LETRAS SEMPRE FORAM POLITIZADAS. VOCÊ AINDA ACREDITA NO BRASIL?
Sou um pessimista de raiz e isso facilita a vida num país como o nosso. Não esperar muito daqui me faz ainda acreditar um pouquinho que as coisas podem ser melhores, mas só um pouquinho. Talvez se eu não botasse uma fé em alguma mundança já teria me mudado faz tempo.

MARINA, DILMA OU SERRA: QUEM VOCÊ ACHA QUE VEM POR AÍ?
Sinceramente não sei. Não votarei em nenhum deles, mas gostaria de neste ano votar. A guerra já começou e é uma disputa bem na superfície, quase uma Copa do Mundo. Não se discutem planos de governo, as contas não são mostradas, fica tudo na base do “Você é feio e eu vou contar na Globo” e o nível baixa bastante. Eu gostaria de alguém bastante à esquerda, que fizesse de uma vez por todas uma reforma agrária ampla e justa, botasse estes caras do agronegócio nos seus lugares ou na cadeia, que não fodesse o Código Florestal Brasileiro como fizeram dias atrás, que resolvesse de uma vez por todas o problema da saúde e da educação pra gente poder filamente virar um país. Mas, como é, não vai mudar. Temos um congresso criminoso e a mercê de todos os lobistas mais nefastos do mundo. Temos um povo mal educado em todas as classes, que vê a corrupção como algo normal porque foi criado sob isso, e por aí vai. Resta acreditar que a gente, individualmente, pode fazer alguma pequena diferença.

EM POUCAS PALAVRAS, RESUMA…
O ESTADO DO ESPÍRITO SANTO:
Descobri que o ES representa 2% da população “brazaland”. Tá explicado porque somos tão deixados pra escanteio na Federação: não temos peso votante. Já que estamos falando em eleições… cara, meu Estado podia ser a Bélgica, a Dinamarca e agora o Kwait em vários aspectos sociais e econômicos, mas se permite ser somente a Sicília, o que me deixa bastante irritado. O potencial está ali debaixo do nariz de todo mundo, mas, pelo visto, quem manda ali há 100 anos não quer, tem medo de perder o domínio e vamos senguindo sendo uma ilha incógnita no meio do sudeste.
A CIDADE DE SÃO PAULO, ONDE VOCÊ MORA HOJE:
É quase a mesma coisa que sinto em ter  uma banda. É a melhor pior coisa que já fiz na vida. Costumo resumir dizendo que eu amo esta merda aqui, essa “Mumbai glamurosa”.
A ESTRADA COM O DEAD FISH:
É, como disse, a melhor pior coisa que já fiz na vida. Aprendi mais na estrada do que no colégio.
RODRIGO LIMA:
Gênio incompreendido… hahahahahaha!

QUEM LÊ O “CONCEITOALL” PROVAVELMENTE SE INTERESSA POR MÚSICA, COMUNICAÇÃO E ARTE EM GERAL. TEM ALGUMA DICA NESSA ÁREA PARA OS VISITANTES DO BLOG?
Cara, eu tenho. Prestem atenção no seu entorno! Tem gente produzindo coisa muito relevante do lado da tua casa, nos muros da sua cidade… abra seus olhos. Não é preciso pagar caro pra estar envolvido com algo que possa mudar os seus conceitos de vida. Se joguem em SESCs da vida, galerias gratuitas, shows baratos, coletivos de molecada, cinema… vão atrás aí.


Assista aqui ao clipe de ZERO E UM, do Dead Fish. A letra você confere abaixo.

ZERO E UM

Um bom computador e um carro veloz
Pra me manter distante de mim
No amplo progresso entre zero e um
Esconder em você meus erros

Pensar sim, dizer o não
Quanto mais perto, mais distante do que sou
Vou mentir, exagerar
Essa verdade já não tem tanto valor

Deletar o que realmente sinto e posso acreditar
Programar uma nova linguagem em que possa me adequar

Sem cores decadentes, sem nenhum arranhão
Um brilho nos dentes e um vazio no ar

E não há mais retorno com o que vai acontecer
Já foi tudo planejado, inexorável proteção
E sei que você aceita, como eu já aceitei
Mais um anúncio em nosso caos

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2 Respostas to “ABRA OS OLHOS: TEM ARTE AÍ! {Entrevista com Rodrigo, do Dead Fish}”

  1. Muito show a entrevista! Tem futuro hein Deh!
    parabens!

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